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Ai, que alívio!O que fazer com a dor do parto?

17 de julho de 2009

Escrito por  Maíra Libertad Enfermeira, Doula e Professora de Enfermagem

Mas eu tenho medo da dor, sabe? Não sei bem como vai ser isso de ter contração… Dizem que dói. Já ouvi falar até que é a pior dor que existe…
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Creio que a maior parte das mulheres, antes de parir, manifesta em algum momento algum nível de preocupação com relação às contrações durante o trabalho de parto. Será que dói? E se doer? Será que eu vou agüentar?

O modo como cada uma quer manejar a dor durante as contrações é um item importante do plano de parto e, para tomar decisões com relação a isso, é importante saber que há mais de uma alternativa.

E que seria interessante pensar em termos de contrações, mais até do que de ‘dor’. Não, não estou negando que ter contrações e passar pelo trabalho de parto envolve algum nível de dor. Ela existe e seria um equívoco muito grande dizer que não. Mas cada uma, depois de passar pela experiência, é que vai poder dimensioná-la.

… exemplos tirados dos relatos Conte seu Parto:

‘Eu sabia que quando a bolsa estoura as contrações apertam. E foi o que aconteceu. Elas ficaram bem próximas, mas a Ana Cris me lembrava que faltava muito pouco, pra eu aguentar esse finalzinho porque a dor ia sumir. O expulsivo seria só pressão e outras sensações. E assim foi.’ (Meire Santos)

‘Imaginei que fosse dar um salto enorme na intensidade da dor e eu fosse sofrer muito com a introdução da ocitocina. Mas não. Quando o trabalho de parto engrenou, senti um imenso prazer. A música tocando baixinho, as mãos suaves e o doce cantarolar da Cris: “Abre-te, Dani, Abre-te Dani, como as pétalas de uma flor…” foram as maiores dádivas até 5 centímetros de dilatação.’ (Daniela Buono)

‘Ela fez o toque e constatou 7cm, mas disse que o líquido havia ficado mais escuro e resolveu me colocar no cardio sei lá o que, para escutar o coração do bebê. Ali eu comecei a me desesperar, vi que ela ia me transferir. O psicológico com certeza influi, pois parecia que as dores tinham quintuplicado ali na hora. Ali, na mesa, deitada, me descontrolei e falava sem parar para a Rose (a enfermeira): “Rose, Rose, você sabe o que você vai fazer comigo, né? Vai me transferir e me farão uma cesárea! Rose, por favor, eu conheço casos de bebê com mecônio em parto normal, não faz isso comigo!”‘ (Daniela Oliveira)

‘Eu vim para casa, e me senti bem mais calma aqui. Tomei um banho delicioso. Mas ao cair da noite veio a ansiedade… Ué, cadê as dores??? Por que não sinto nada??? Só contrações…regulares, mas sem dor. (…) Ele me examinou e constatou que eu já estava com 5 cm!!! Acreditam? E nada de começar as dores. Ele então disse que iria me internar, pois em breve eu teria o bebê. (…) Eu caminhava pelo banheiro e cada vez que vinha a contração corria para o vaso sanitário… Não sei porque, mas aquilo me dava um baita alívio. E a cada contração eu sentia jorrar um monte de líquido pelas minhas pernas. Eu estava descalça e era um pouco escorregadio, mas tão quente… Eu me sentia tão feliz por poder viver cada uma daquelas sensações sozinha, sem ninguém…’ (Daniela Aragão)

Então, cada uma vai sentir de um jeito, que só vai ser possível saber na hora e, do mesmo modo, cada uma vai encontrar a sua forma de lidar com as sensações que as contrações vão trazer. O que eu proponho aqui é pensarmos em duas escalas que correm paralelamente: uma que é a evolução da intensidade das contrações (e, consequentemente, da intensidade da dor envolvida – seja ela de que tamanho for) e outra que é uma escala de possíveis intervenções para driblar e vencer essa dor.

Se eu perguntar para você agora ‘O que você faz quando chega em casa, depois de um dia cansativo, com uma pontinha de dor de cabeça?’, você vai me responder o quê? Creio que você não vá me dizer que se internaria num hospital para tomar uma anestesia geral. Então, a proposta é essa. Pensar numa gradação para dor que pode ser acompanhada por uma gradação nas intervenções para alívio da dor. Muito provavelmente, a maioria das pessoas que sentem uma pontinha de dor de cabeça ao final de um dia cansativo de trabalho consegue associar essa dorzinha ao stress, ao trânsito infernal na hora do rush, aos conflitos no trabalho. Há uma causa conhecida e ninguém associa de imediato esse tipo de desconforto com um tumor no cérebro ou coisa que o valha. Sendo assim, as respostas à essa dorzinha podem começar com tirar o sapato e a roupa, tomar um banho quente, ouvir uma música relaxante, comer uma comidinha gostosa, tomar um cálice de vinho, dormir ou namorar com o marido. E podem chegar, claro, até a opção de tomar um analgésico mais potente, caso o incômodo seja mais forte e não permita sequer curtir esses momentos relaxantes (e altamente prazerosos).

Foi só um exemplo. Porque sabemos que a dor que tem origem nas contrações do útero durante o trabalho de parto tem uma outra função e uma outra característica muito diferente das dores que refletem incômodos, agressões ou lesões ao organismo. É uma dor benéfica, digamos assim. Que diz respeito a um trabalho muito bonito e muito bem orquestrado pelo corpo para, a cada contração, estimular a abertura da passagem por onde o bebê vai sair naturalmente. E é uma dor que traz de brinde os intervalos para o descanso e a certeza de que, a cada uma que passa, é menos uma para o momento indescritível de ver seu bebê fazendo caretinhas gostosas no seu colo e pedindo seu peito. Vale a pena, não?

Mas a idéia das escalas é útil aqui também. Conforme vai aumentando a intensidade das contrações, há alternativas diversas de que podemos lançar mão para vencê-las e que podem ser organizadas também numa certa ‘gradação de intensidade’. Eu acredito que pode ser útil enumerar aqui algumas dessas alternativas, lembrando sempre que muitas vezes é só a própria mulher, sentindo a contração, que vai achar a sua alternativa, adequada e eficiente para aquele momento e que pode variar desde uma mudança de posição até rezar com fé para um santo de devoção. Tudo é válido.

Vou fazer aqui um parênteses para explicar de uma forma bem sintética aquilo que conhecemos como ciclo ‘medo-tensão-dor’, só para justificar essa idéia de que quase tudo, por mais esquisito que pareça, pode ser usado como antídoto para a dor da contração. Esse ciclo é um modelo que explica como é que se dá a dor no corpo da gente e funciona mais ou menos assim: ter medo gera tensão, tensão aumenta a intensidade da dor e, principalmente, a percepção que a pessoa sob situação de medo e tensão tem da dor. Mais dor, mais medo. Mais medo, mais tensão. Ou seja, um ciclo vicioso em que uma coisa vai retroalimentando a outra. Esse é um modelo explicativo que tem fundamentação científica e que várias pesquisas já confirmaram.

Sendo assim, eu diria que lá no início da nossa escala de intervenções para alívio da dor vêm aquelas condutas que visam minimizar o medo e diminuir a tensão. Os equivalentes, no trabalho de parto, a ‘tirar o sapato, a roupa e tomar um banho’ lá do nosso exemplo da dor de cabeça no final do dia. Ter informações, confiar no processo, estar acolhida por profissionais e acompanhantes afinados com os seus desejos, ouvir palavras de encorajamento, não precisar passar por situações de stress desnecessárias e por aí vai. Podíamos dizer que esse é um primeiro nível de condutas para aliviar a dor, ou, mais que isso, preveni-la, de certa forma. É a segurança de estar num processo sobre o qual você tem controle na medida em que isso é possível. Isso não faz sumir a dor, mas pelo menos tenta evitar que você entre no tal ciclo medo-tensão-dor e possa administrar melhor as sensações do seu corpo.

Depois, viriam as intervenções não farmacológicas para alívio da dor, que têm uma íntima relação com o relaxamento (a diminuição da tensão de que falei agora há pouco), com a possibilidade de se entregar ao processo fisiológico que está acontecendo no seu corpo e também de ‘distrair’ os teus sentidos, desviando o foco da dor para outras sensações. São os banhos quentes, as massagens, as técnicas de relaxamento e de respiração, a presença de um acompanhante de confiança, o uso da música, o abraço carinhoso do marido ou da mãe ou de quem for, o cafuné etc.

O apoio empático durante o trabalho de parto e essas técnicas não farmacológicas de alívio da dor não são crendices, misticismos, frescuras ou apenas uma coisa qualquer que pode ser tentada, mas não tem embasamento científico. Muito pelo contrário, a maior parte dessas estratégias já foi muito bem testada e encontra explicações na fisiologia do trabalho de parto e parto.

São uma opção real e efetiva para aliviar a dor das contrações. Funcionam mesmo e ler relatos de parto nos mostra isso a toda hora. Todas as mulheres têm lá seu relato pessoal de que uma determinada coisa (ou a combinação de várias), naquele momento, aliviou a dor (seja a chegada do acompanhante que estava atrasado, o banho quente no chuveiro ou na banheira, a massagem nas costas etc.).

Há aqui um outro tipo de intervenções um pouco diferente, que diz respeito à liberdade para mudar de posição e caminhar. Se você estiver livre para assumir a posição que quiser, por mais esquisita ou incomum que ela possa parecer, muito provavelmente alguma hora vai conseguir achar uma mais confortável, em que você vai se sentir melhor. Há uma série de explicações diferentes para isso: pode ser porque daquele jeito você auxilia a mudança de posição do bebê, se ele estiver em uma não muito favorável; pode ser que você deixe de sobrecarregar uma área que já está mais ‘cansada’ (as costas, por exemplo, ou o baixo ventre); ou porque naquela determinada posição você ajuda o trabalho do útero contraindo etc.

Aí, chegamos então ao finalzinho da nossa escala, que seriam as intervenções farmacológicas para alívio da dor, ou seja, a analgesia (comumente chamada de anestesia mesmo). É possível lançar mão de uma anestesia peridural ou raqui durante o trabalho de parto, mesmo que o parto vá ser normal.

A anestesia é uma intervenção e, como tal, não está livre de riscos e, por isso mesmo, tem suas vantagens e desvantagens. O que é preciso saber sobre ela? Em primeiro lugar, é importante saber que uma anestesia aplicada no começo do trabalho de parto aumenta, e muito, a possibilidade de parada na evolução e, por isso mesmo, aumenta as chances de mais intervenções serem necessárias e também aumenta os índices de fórceps e cesárea.

Sendo assim, quanto mais no finalzinho do trabalho de parto ela for usada (se você sentir que ela é de fato necessária), tanto menor a chance de complicações. Isso explica pensarmos em termos de uma gradação nessas intervenções. Quando as contrações estão menos intensas, começamos lançando mão de estratégias mais simples (mas não menos úteis). E assim vamos conseguindo vencer as contrações conforme elas evoluem, sendo que seu bebê pode nascer sem que seja preciso utilizar uma medicação para diminuir a dor, só com ações não invasivas, não farmacológicas, mas muito, muito efetivas. Porque nenhuma intervenção, nenhum medicamento é inócuo, sempre traz consequências e, sempre que possível, se pudermos não usá-los, melhor.

No entanto, se tudo tiver sido tentado e você sentir que atingiu seu limite e que a dor está insuportável para você, a analgesia é possível e, se bem utilizada, pode ser benéfica. A questão é: ela pode ser utilizada se VOCÊ sentir que é necessária, no momento em que VOCÊ pedir e, de preferência, se VOCÊ já tiver passado pelas outras tentativas todas. O ideal é que, conforme a dor aumenta, se vá lançando mão de tudo temos à mão em termos de alternativas aos medicamentos e a analgesia ter seu lugar como último recurso.

Conversar com seu médico sobre isso, conhecer os tipos de analgesias, discutir o momento em que ela pode ser usada, exigir que seja o seu limite e a sua solicitação o termômetro para a aplicação desse recurso, essas são atitudes muito úteis para tentar garantir um uso realmente necessário.

O alívio da dor tem muitas caras e pode ser conseguido de muitas formas. Pensar numa escala pode ser útil para ter em mente que, quanto menos invasivas as estratégias escolhidas, menor a possibilidade de complicações em decorrência do seu uso. E o resultado pode ser supreendente mesmo da simples presença de alguém ao lado segurando na sua mão! Vale a pena tentar… E deixar o uso de medicamentos (que trazem riscos de complicações para você, seu bebê e seu trabalho de parto) lá no fim da escala, para o caso de você sentir que precisa mesmo.

Dói sim, mas no final tudo compensa, a dor não chega nem aos pés do que é esse momento mágico, esse momento incrível que é dar a luz, parir, colocar seu filho, seu pedacinho no mundo. A dor não passa “daquilo” chega um ponto que você acaba se acostumando, é ter Fé, manter a calma e se consentrar! Toda mãe tem milhares de dúvidas, o ideal é tirar todas antes e se acalmar, relaxar e só pensar em tranquilidade… em ver seu filhinho(a) nos seus braços, e acreditem, passa rápido, no meu caso deu tudo errado, mas no final deu tudo certo! Cesareana de emergência e neném nos braços!

Iris Mussi

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